LucianaFranklin

“A palavra é metade de quem a pronuncia, metade de quem a escuta” Michel de Montaigne

Textos

Imanência dos afetos

Spinoza criou um esquema que, na realidade, é o que chamamos de plano de imanência (ou de plano de consistência ou de plano de composição). Ele consegue levar a vida no seu imediato, uma vida que não precisa de intermediação. Ele cria o mais puro plano de imanência.

 

O plano de imanência não é um plano como um projeto, como um desenho ou como um programa; o plano é mais como um mapa, como uma geografia, é como uma tela que põe os afetos em contato imediato, o que seria um puro meio, mas não um meio como um intermediário, como intermediação; é um meio puro onde as coisas se dão. Spinoza quer encontrar esse meio, ele quer destituir os intermediários; e os intermediários todos, no fundo, se resumem num único nome, que é a transcendência.

 

Qualquer ligação da existência a uma transcendência faz com que interponhamos entre a vida e a natureza um plano, uma instância, uma entidade que seria a mediadora, a avaliadora e a intérprete das nossas relações. Então, na medida em que eu ligo a existência a esse plano intermediário, eu invisto numa destituição da vida porque eu acredito que a vida precisa de organização.

 

Então eu destituo a vida da capacidade de composição: a composição não bastaria, eu acredito que a vida precisa se organizar, ela precisa ter uma ordem exterior a ela mesma. A composição elimina a hierarquia, a composição elimina essa lei abstrata: a ordem da Lei, a ordem do Estado, a ordem da moral, a ordem da religião – e as hierarquias implícitas nisso. Então essa organização ou esse plano transcendente de organização é um plano que todo homem que está separado do que pode, todo pensamento que está separado do que pode, todo corpo que está separado do que pode, necessita, demanda, clama por esse plano. Esse plano é solicitado como que uma âncora, uma instituição que gera segurança para uma vida demasiado flutuante, demasiado entregue à fortuna, ao acaso, à sorte, à contingência. Então a vida, o corpo, o pensamento, que estão separados do que podem, clamam por esse plano.

 

O efeito imediato em relação ao modo de vida humano, é que o modo de vida vai ser uma questão de dever, vai ser uma questão de moral; então esse ser, que está separado do que pode, vai precisar se pendurar, ou se referenciar, ou se rebater nesse plano teológico, o plano transcendente de organização. Do ponto de vista, então, do modo de vida, você vai ter um sistema de recompensas e de castigos; na medida em que você segue esse plano você é recompensado. Se você for suficientemente competente para se rebater nele e cumprir a demanda que ele exige de você, então você pode esperar recompensas e você sobrevive, você se mantém numa sobrevivência. E você será castigado se você não for suficientemente competente ou até se você ousar transgredi-lo – e aí vai ter uma gama de atribuições negativas: você pode ser louco, você pode ser criminoso, você pode ser doente – tem uma série de desclassificações. Isso do ponto de vista moral: então você vai ter o Bem e o Mal, desse ponto de vista moral, como um rebatimento sobre o plano; você remete a existência a um plano transcendente de organização.

 

A filosofia de Spinoza é voltada para ação na medida em que encoraja o sujeito a perder o medo de viver em ato, estimulando-o a desenvolver uma ciência intuitiva, que o leve a compreender as forças que lhe afetam. Uma filosofia que inspira os indivíduos a não serem mais escravos dos encontros fortuitos, mas que se esforce (conatus), que persevere na afirmação do seu ser, na busca dos bons encontros, que produzam paixões alegres que aumentem sua potência de agir. É neste sentido que Deleuze afirma que Spinoza “oferece uma imagem da vida positiva e afirmativa” (2002: 18). O estudo em tela tem por objetivo explorar algumas reflexões, métodos, conceitos e categorias desenvolvidas por Baruch Spinoza, no sentido de compreender a dinâmica dos afetos e suas implicações para a liberdade, atentado para sua obra de maior envergadura, Ética.

 

DELEUZE, G. Espinosa: filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002.

GIACÓIA JÚNIOR, O. A Ideia de Liberdade em Espinosa, 2016. Disponível em:<https://www.youtube.com/watch?v=VZDx3MuE8B0>. 

GUIMARAENS, F. Spinoza e o conceito de multidão: reflexões acerca do sujeito

LucianaFranklin
Enviado por LucianaFranklin em 19/06/2024
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