LucianaFranklin

“A palavra é metade de quem a pronuncia, metade de quem a escuta” Michel de Montaigne

Textos


ideologias politiqueiras e partidárias

Katharine Birbalsingh é, segundo a mídia britânica, “a diretora de escola mais rigorosa do país”. Mas a sua exigência tem uma razão: “Quero que os meus alunos saiam pelo mundo e encontrem o seu propósito na vida”. O fato é que a receita funciona, mesmo num bairro marginal de Londres, e com uma maioria de estudantes de origem imigrante.

"Todos nós queremos progresso, mas se você estiver no caminho errado, progresso significa dar meia-volta e voltar ao caminho certo; nesse caso, o homem que dá a volta primeiro é o mais progressista”: é a frase de C. S. Lewis que está pendurada no escritório dela.

 

Em 2010, Katharine Birbalsingh, diretora da Escola Comunitária Michaela em Londres, ganhou destaque na mídia quando discursou na conferência do Partido Conservador (o que lhe rendeu alguns inimigos, embora ela não seja membro do partido). A sua mensagem era simples: todo o sistema educativo está “falido” porque foi influenciado por ideologias politiqueiras e partidárias que prejudicam o aluno. Esquecem-se de Jean Piaget, Lev Vygotsky, Melanie Klein, Henri Wallon, Johann Heinrich Pestalozzi. Esquecem-se de estudar e não só copiar e colar do Google.

 

Em 2014 passou do dizer à ação e abriu uma escola aproveitando uma reforma governamental que tinha dado mais flexibilidade ao sistema educativo britânico ao permitir a criação de escolas gratuitas: escolas com um regime semelhante ao das escolas charter da Espanha. (Nota da tradução: escolas charter são financiadas com dinheiro público, mas operam sem muitas das regulamentações impostas às escolas públicas, o que lhes dá mais liberdade para inovar na metodologia.)

 

Apesar de os detratores de Birbalsingh terem feito todo o possível para boicotar a abertura da escola, a escola Michaela funciona há dez anos com um corpo discente de baixo nível socioeconômico que tem conseguido ficar entre os melhores do país nos exames secundários.

 

Em parte, as razões deste sucesso podem ser encontradas em The power of culture [O poder da cultura], livro escrito por alguns professores da escola que explica, entre outras coisas, por que ainda vale a pena ensinar Shakespeare, por que numa escola com grande presença de migrantes canta-se God Save the King [Deus Salve o Rei] ou porque nos corredores os alunos caminham em silêncio (exceto se se depararem com um membro da equipe da escola, a quem devem então olhar nos olhos e cumprimentar com um alto e bom som “Bom dia, professor".

 

A mensagem de boas-vindas que se lê no site também é bastante ilustrativa: “Somos diferentes. Colocamos o tradicional em moda. Trabalhamos duro e perseveramos. Adoramos celebrar a bondade e a gratidão. Aceitamos desafios e superamos obstáculos. Fizemos a diferença para que um dia possamos olhar para trás e saber que valeu a pena.” “Trabalhar muito” não é uma metáfora: chegar alguns minutos atrasado, não ter o material necessário ou não ter feito a lição de casa são motivos para ganhar uma punição, que geralmente consiste em ficar mais meia hora na escola após o término das aulas. É claro que o professor conversará com o aluno para explicar o motivo da sanção, com um discurso que costuma estar impregnado da necessidade de responsabilidade pessoal.

 

 

Foto: Filme Herlod and Maude, Hal Ashby, 1971.

Fonte: The Times, 26/02/2025

 

LucianaFranklin
Enviado por LucianaFranklin em 26/02/2025
Alterado em 26/02/2025
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