

Clivagem da consciência
O conceito de clivagem da consciência ("eu normal" versus "eu secundário") foi descrito pela primeira vez por Pierre Janet¹ em 1889). Suas ideias foram ampliadas por Paul Eugen Bleuler² que em 1908 cunhou a palavra esquizofrenia para explicar a clivagem da consciência, não como o produto da fraqueza inata, mas como o resultado de um conflito interno. Com o desenvolvimento da ideia de repressão, a clivagem se tornou secundária na atenção de Freud por alguns anos, sendo amplamente reservada para casos de Transtorno Dissociativo de Identidade(erroneamente conhecido como "Dupla ou Múltipla Personalidade). No entanto, seu trabalho tardio viu um interesse renovado em como era "possível para o ego evitar uma ruptura ... efetuando uma clivagem ou divisão de si mesmo"³ além do fetichismo para o neurótico em geral, a clivagem é também conhecida como dissociação ou cisão e é um mecanismo de defesa em que uma pessoa divide o mundo, as pessoas ou até mesmo a si mesma em polos opostos, como "bom" e "mau" ou "verdadeiro" e "falso", sem que essas partes se integrem ou se reconheçam. Esse processo, que pode ser uma resposta a um conflito interno ou a um trauma, permite a coexistência de atitudes opostas na mente e é característico de algumas patologias, como psicoses e transtornos de personalidade. Exemplos: A criança que idolatra um dos pais e odeia o outro, sem reconhecer os aspectos positivos no pai rejeitado. A pessoa profundamente religiosa que vê os outros como "abençoados" ou "condenados", sem reconhecer a complexidade das pessoas. A pessoa com uma fissura no eu que não consegue integrar percepções traumáticas, resultando em uma instabilidade constante do seu funcionamento psíquico. A clivagem corresponde assim, a um processo de defesa paradoxal (in: Roussillon, 1999) através do qual o sujeito sobrevive psiquicamente ante a ameaça de transbordamento pulsional pelo corte da subjetividade. A clivagem como recurso funcional radical de sobrevivência psíquica ante uma experiência subjetiva traumática. Como estratégia de adaptação à realidade traumática, a clivagem é guardiã de Eros ou da sobrevivência psíquica, como se para sobreviver fosse necessário "matar" um pedaço de si.
¹ Pierre Janet foi um psicólogo, psiquiatra e neurologista francês que fez importantes contribuições para o estudo moderno das desordens mentais e emocionais envolvendo ansiedade, fobias e outros comportamentos anormais. Está classificado ao lado de William James e Wilhelm Wundt como um dos fundadores da psicologia.
² Psiquiatra suíço notável pelas suas contribuições para o entendimento da esquizofrenia, esquizoidia e autismo.
³ Sigmund Freud, On Psychopathology (Middlesex 1987) p. 217.
FONTES: ROUSSILLON, R. Agonie, clivage et symbolisation . Paris: PUF, 1999. Guia de Leitura da Obra de S. Freud. [S.l.]: Artmed Editora. pp. 274–275. LucianaFranklin
Enviado por LucianaFranklin em 07/08/2025
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