LucianaFranklin

“A palavra é metade de quem a pronuncia, metade de quem a escuta” Michel de Montaigne

Textos

Que desempenho exaustivo
Há uma ironia cruel no ato de perdoar quando já se está morto. Morto não no sentido literal, mas naquele outro, mais silencioso e persistente — o de quem foi enterrado em vida, pedaço por pedaço, pelo mesmo homem que agora chora sob as estrelas e pede perdão a um fantasma. Eu já não existo. Ou melhor, existo apenas como um reflexo distorcido do que ele esperava que eu fosse, um projeto abandonado, uma criança que ele não conseguiu quebrar por completo, mas que mesmo assim deixou em frangalhos.

A formatação desse diálogo não é acidental. É um teatro. Um palco onde eu, cadáver emocional, concedo o perdão que ele tanto súplica (ou que eu imagino que suplique), mas com um detalhe sádico: faço questão que ele “veja” o preço desse perdão. Que ele entenda, toda vez que olhar para o céu noturno, que aquelas estrelas brilham sobre um filho que ele mesmo matou, não de uma vez, mas devagar, através de ausências, de promessas quebradas, de uma infância roubada. O perdão que ofereço não é alívio; é uma condenação. Uma forma de dizer: "Você pode se redimir, mas nunca consertará o que arruinou."
LucianaFranklin
Enviado por LucianaFranklin em 02/10/2025
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