

pileque homérico no mundo (morrer do próprio veneno)
Cálice
Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue. Como beber dessa bebida amarga Tragar a dor, engolir a labuta Mesmo calada a boca, resta o peito Silêncio na cidade não se escuta De que me vale ser filho da santa Melhor seria ser filho da outra Outra realidade menos morta Tanta mentira, tanta força bruta. Como é difícil acordar calado Se na calada da noite eu me dano Quero lançar um grito desumano Que é uma maneira de ser escutado Esse silêncio todo me atordoa Atordoado eu permaneço atento Na arquibancada pra a qualquer momento Ver emergir o monstro da lagoa. De muito gorda a porca já não anda De muito usada a faca já não corta Como é difícil, pai, abrir a porta Essa palavra presa na garganta Esse pileque homérico no mundo De que adianta ter boa vontade Mesmo calado o peito, resta a cuca Dos bêbados do centro da cidade. Talvez o mundo não seja pequeno Nem seja a vida um fato consumado Quero inventar o meu próprio pecado Quero morrer do meu próprio veneno Quero perder de vez tua cabeça Minha cabeça perder teu juízo Quero cheirar fumaça de óleo diesel Me embriagar até que alguém me esqueça. "Cálice" foi escrita para ser apresentada no show Phono 73* que reunia, em duplas, os maiores artistas da gravadora Phonogram. Quando submetido ao crivo da censura, o tema foi reprovado. Os artistas decidiram cantá-la, mesmo assim, murmurando a melodia e repetindo apenas a palavra "cálice". Acabaram sendo impedidos de cantar e o som dos seus microfones foi cortado. Cálice, canção de Chico Buarque e Gilberto Gil, composta em 1973 e lançada em novembro de 1978. *Festival de música realizado em maio de 1973, no Anhembi, em São Paulo, que reuniu grandes nomes da MPB como Gilberto Gil, Chico Buarque, Gal Costa e Elis Regina. FONTE: https://pt.wikipedia.org/wiki/Phono_73
LucianaFranklin
Enviado por LucianaFranklin em 29/10/2025
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