LucianaFranklin

“A palavra é metade de quem a pronuncia, metade de quem a escuta” Michel de Montaigne

Textos

Querem entrar nas nossas cabeças

Helena disparou em alto e bom som: “Eu uso porque gosto, porque adoro, não vou ficar nessa de pedir desculpa pelo que faço com a minha vida. A vida é minha, gosto da pedra; fumo e pronto”! Sorrindo de canto, agora eram as outras mulheres que, em silêncio, a escutavam.

 

Promover saúde seria promover qualidade de vida? Mas, convenhamos, a missão não é fácil; é trágica! Não raro, denominamos como “práticas de promoção da saúde” tudo aquilo que acaba se mostrando como práticas de prevenção de doenças, um tipo apreciado de “estranho do ninho” do setor, uma audácia valorizada, mas que incomoda. De um lado, escancara a insuficiência das tecnobiociências e do próprio setor para promover saúde – se autoproclama “intersetorial” e “interdimensional” – e, de outro, é uma commodity para as propostas e as práticas também nomeadas com o mesmo desígnio. A promoção da saúde quer qualificar positivamente a existência individual e coletiva em suas dimensões biológica, econômica, política, educacional, cultural, estética, ética, psicológica, espiritual, entre outras... só isso!

 

Em Nietzsche, é a consciência humana que avalia a vida. É ela que nos alerta dos riscos à saúde. Essa é nossa força e nossa fragilidade. Para o filósofo, a consciência seria a estrutura menos desenvolvida da espécie humana, entendendo não possuirmos “[...] nenhum órgão para o conhecimento, para a ‘verdade’: ‘sabemos’ (ou acreditamos ou imaginamos) precisamente tanto quanto pode ser útil no interesse do rebanho humano” (A Gaia Ciência, p. 271). É justamente esse órgão que estabelece os valores a serem considerados para compor as condutas humanas e, no caso da saúde, as referências de autovigilância inerentes ao autocuidado; agora somos nós que devemos promover a nossa própria saúde.

 

Entretanto, para Nietzsche, consciência é um tipo de fração efêmera que entende a alma como um arranjo mutável do mundo. Para ele, somos um oceano desconhecido de nós mesmos. Um oceano no qual deságuam rios com águas-forças sociais, afetivas, instintivas, orgânicas e inorgânicas. É sobre as águas desse oceano em movimento que flutua a folha da consciência, ostentando a função de avaliadora e coordenadora da vida. As forças das marés, a dinâmica das correntes da vontade de potência.

 

FONTE:

Nietzsche FW. A Gaia Ciência. Lisboa: Relógio D'Agua Editores; 1998.

___________. Além do bem e do mal. 2a ed. São Paulo: Companhia das Letras; 1992.

 

 

LucianaFranklin
Enviado por LucianaFranklin em 09/04/2026
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