LucianaFranklin

“A palavra é metade de quem a pronuncia, metade de quem a escuta” Michel de Montaigne

Textos


Sorge* de Hyginus

"Certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro. Logo teve uma idéia inspirada. Tomou um pouco do barro e começou a dar-lhe forma. Enquanto contemplava o que havia feito, apareceu Júpiter. Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele. O que Júpiter fez de bom grado. Quando, porém, Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado, Júpiter o proibiu. Exigiu que fosse imposto o seu nome. Enquanto Júpiter e Cuidado discutiam, surgiu, de repente, a Terra. Quis também ela conferir o seu nome à criatura, pois fora feita de barro, material do corpo da Terra. Originou-se então uma discussão generalizada. De comum acordo pediram a Saturno que funcionasse como árbitro. Este tomou a seguinte decisão que pareceu justa: "Você, Júpiter, deu-lhe o espírito; receberá, pois, de volta este espírito por ocasião da morte dessa criatura. Você, Terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto, também de volta o seu corpo quando essa criatura morrer. Mas como você, Cuidado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura, ficará sob seus cuidados enquanto ela viver. E uma vez que entre vocês há acalorada discussão acerca do nome, decido eu: esta criatura será chamada Homem, isto é, feita de húmus, que significa terra fértil". Ser e Tempo pág. 132

 

A Fábula do Mito do Cuidado, atribuída a Hyginus, fabulista latino, é uma alegoria filosófica sobre a origem e a natureza humana, destacando que o cuidado é a essência do ser. Esta fábula foi imortalizada na filosofia moderna por Martin Heidegger em sua obra Ser e Tempo, onde utiliza a narrativa para explicar o conceito de "cura" ou "preocupação" como o ser do Dasein (ser-aí). A narrativa conta a criação do homem por três figuras distintas:

Cuidado (Cura): Ao atravessar um rio, o Cuidado vê um pedaço de barro e molda uma criatura.

Júpiter: O Cuidado pede a Júpiter que sopre espírito (alma) na criatura, o que ele faz.

Terra (Tellus): Como o corpo foi feito de barro, a Terra reivindica que a criatura receba seu nome. Surge um conflito sobre quem deve dar o nome à criatura. Eles chamam Saturno (ou Chronos/Tempo) para decidir. A sentença de Saturno determina que: Júpiter (espírito) receberá o espírito de volta quando o homem morrer. Terra (corpo) receberá o barro de volta quando o homem morrer. Cuidado (cura) possuirá a criatura durante toda a sua vida. (www.alexandremaps.com)

 

Como a criatura foi moldada pelo "Cuidado", enquanto viver, ela pertencerá ao Cuidado. A fábula sugere que o ser humano não é apenas matéria ou espírito, mas sim um ser estruturado pelo "cuidado" (cuidado de si, do outro, do mundo). Em latim, homo (homem) vem de humus (barro/terra), evidenciando a fragilidade da vida que precisa ser cuidada. Na análise heideggeriana, o homem é essencialmente preocupação (Cura). A existência humana só faz sentido através dessa cura.

A fábula também é usada para refletir sobre a saúde, oscilando entre uma saúde funcional (corpo máquina) e uma saúde criativa, onde o "cuidado" é a base da existência. A fábula enfatiza que a vida é uma oscilação entre a Terra (materialidade) e o Espírito (espiritualidade), mediada fundamentalmente pelo Cuidado. (www.alexandremaps.com)

 

*Sorge significa algo como cuidado.

 

FONTE:

HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Fausto Castilho. Campinas: Editora da Unicamp; Petrópolis: Vozes, 2012. (Edição Bilíngue).

 

IMAGEM:

https://www.alexandremaps.com/pages/books/B5979/julius-hyginus-palaephatus-fabius-planciades-fulgentius-solensis-aratus-proclus-moltzer-jakob/c-ivlii-hygini-avgvsti-liberti-fabvlarvm-liber

LucianaFranklin
Enviado por LucianaFranklin em 10/04/2026
Alterado em 10/04/2026
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