LucianaFranklin

“A palavra é metade de quem a pronuncia, metade de quem a escuta” Michel de Montaigne

Textos


A volúpia da filantropia

A filosofia de Michel de Montaigne oferece uma perspectiva singular sobre a volúpia (prazer, sensibilidade) e a filantropia (amor à humanidade/amizade), marcada pela valorização da experiência humana, a crítica ao estoicismo rigoroso e a aceitação da nossa natureza corporal.

 

Montaigne é, muitas vezes, lido como um filósofo da volúpia, especialmente em seus ensaios tardios como "Sobre os versos de Virgílio" e "Da experiência" que ao contrário da tradição cristã ou platônica que despreza o corpo em favor da alma, ele argumenta que a alma sem o corpo se depaupera. Ele não vê a volúpia como um vício, mas como uma parte natural da vida que deve ser vivida e aceita. Ele rejeita a visão de que devemos suprimir os desejos. Para Montaigne, a sabedoria não está em negar os prazeres, mas em saber utilizá-los e vivenciá-los de maneira equilibrada, ele critica o arrependimento que vem com a idade, recusando-se a chamar de "virtude" a simples impotência física de quando se é velho. Ele defende o prazer enquanto a juventude e o poder nos permitirem.

 

No ensaio sobre a amizade (geralmente comparado à amizade com Étienne de La Boétie, Servidão Voluntária), Montaigne a descreve como uma relação singular e perfeita, superior a outras formas de sociedade ou amor e sua obra demonstra uma forma de filantropia cética ao aceitar a si mesmo com todos os defeitos, Montaigne aceita a condição humana com todos os seus erros e imperfeições e sua escrita é uma forma de compartilhar a experiência humana ("um estudo de si") sem o objetivo de ensinar, mas de partilhar a própria jornada.

 

A filosofia de Montaigne une volúpia e filantropia ao colocar o corpo e o prazer no centro da experiência humana, enquanto propõe um "desapego paradoxal" — cultivar os prazeres da vida, mas estar pronto para deixá-los ir (soltar) quando a natureza determinar.

 

FONTE:

LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso da servidão voluntária. São Paulo: Martin Claret, 2009.

MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Editora 34, 2016. (Edição completa).

 

LucianaFranklin
Enviado por LucianaFranklin em 24/04/2026
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