LucianaFranklin

“A palavra é metade de quem a pronuncia, metade de quem a escuta” Michel de Montaigne

Textos

Um problema, mas não um mistério

A fome é um problema tão velho quanto a própria vida. É um tipo de problema que põem em jogo a própria sobrevivência da espécie humana que tem também que lutar contra as doenças que a assaltam, abrigar-se das intempéries, defender-se dos

inimigos. Antes de tudo, porém, precisa, dia após dia encontrar com que subsistir, comer. E esta necessidade, é a fome que se encarrega de lembrá-la. E todo mundo sabe também que nesse velho combate contra esta praga permanente, a humanidade conseguiu apenas uma vitória incerta e precária.

 

No decurso da História houveram épocas de fome, mas isso parece tão remoto! Continua a haver fome em certos países. As guerras às vezes acarretam a fome, mas isso parece tão raro! Na realidade, sob essa aparente indiferença, havia algo mais do que simples imprevidência e egoísmo. Havia a convicção milenar de que os males provocados por flagelos naturais são inevitáveis e a idéia de que a própria organização das sociedades comporta desigualdades e que estas, por sua vez, são inevitáveis. Para que então pensar no irremediável?

 

Um flagelo só é inevitável quando permanece em mistério. Os males provenientes da falta de alimentos continuam sendo um problema, mas já não são um mistério.

 

FONTE:

CASTRO. Josué de. Geografia da fome (o dilema brasileiro: pão ou aço). Rio de Janeiro: Edições Antares, 1984.

LucianaFranklin
Enviado por LucianaFranklin em 19/06/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Site do Escritor criado por Recanto das Letras