LucianaFranklin

“A palavra é metade de quem a pronuncia, metade de quem a escuta” Michel de Montaigne

Textos

Tem aquela do tijolo

Era a primeira sessão de psicoterapia familiar. A familia entrou e a criança sentou-se ao lado da casinha de bonecas, parecendo estar distraída com o brinquedo. O terapeuta perguntou por que estavam ali. A mãe disse que o menino não falava , ao que o profissional perguntou por que. O pai disse que não sabiam, mas que um dia ele simplesmente parou de falar. O "paciente identificado" (P.I.) correu para o meio dos adultos e gritou "tem aquela do tijolo"!!! O casal ficou sem jeito e explicou que numa briga, a mãe arremessou um tijolo no pai e ele presenciou a cena, depois dessa ele nunca mais falou.

 

Questões:

- A criança era mesmo o P.I.?

- O comportamento do menino ilustra com precisão o conceito de "Paciente Identificado" (P.I.) e a função do sintoma na manutenção do equilíbrio (homeostase) do sistema familiar?

- O P.I. carrega o sintoma para personificar o conflito latente da família. Enquanto a atenção está voltada para a "doença" dele, os problemas reais dos pais (como crises conjugais ou segredos) ficam ocultos?

- Ao brincar de "faz de conta" a criança representa algumas dinâmicas sociais?

- O mutismo do menino não é apenas um problema individual, mas uma manifestação de uma disfunção no padrão de comunicação do casal?

- Quando o terapeuta começa a interrogar os pais sobre a dor da família ("por que parou de falar?"), a tensão no ambiente aumenta e o sintoma transborda?

- A criança prefere passar por "problemática" a ver o sistema familiar desmoronar sob o peso de um conflito direto entre os adultos?

- A frase "tem aquela do tijolo" provavelmente faz alusão a um evento específico, um trauma, uma briga pesada ou um "segredo de família" que os pais estão tentando esconder ou esquecer?

- O menino demonstra que sabe exatamente o que está acontecendo e que a sua falta de fala anterior era uma obediência implícita à regra familiar de "não falar sobre o assunto". Ele fala para proteger, mas também para expor que há algo concreto bloqueando a comunicação da casa?

- Devemos focar na estrutura e no funcionamento do sistema familiar, e não na patologia individual da criança?

- Há uma quebra de hierarquia (comportamento de parentificação ou triangulação), onde o filho assume a responsabilidade de proteger os pais de uma conversa dolorosa?

- O "tijolo" representa o evento estressor ou o conflito que o sistema se auto organizou para omitir. A criança verbaliza o paradoxo: ela mantém o silêncio para obedecer à regra familiar, mas grita quando o sistema corre risco de exposição direta/

 

Proposta de Intervenção:

1. Descentralização do Paciente Identificado (P.I.): Validar a fala da criança sem transformá-la no centro da sessão.

Técnica: O terapeuta pode dizer: "Obrigado por lembrar disso, mas agora os adultos vão conversar. Sente-se ali um pouco". Isso retoma a hierarquia e o limite entre o subsistema parental e o filial.

2. Investigação da Metáfora (O "Tijolo")Ação: Explorar o significado do termo jogado no ambiente, direcionando a pergunta aos pais. Técnica: Utilizar perguntas circulares. “O que o filho de vocês quer dizer com 'aquela do tijolo'?” ou “Quando ele fala sobre o tijolo, o que acontece com a conversa de vocês em casa?”.

3. Fortalecimento da Conjugalidade: Isolar o conflito do casal para que ele não sangre para o subsistema do filho.

Técnica: Propor sessões específicas apenas com o pai e a mãe. O objetivo é criar um espaço seguro para que eles discutam as tensões adultas sem que a criança precise atuar como amortecedora ou "bode expiatório". Uma primeira sessão focada exclusivamente no subsistema parental (sem a criança) é fundamental para retirar o peso do Paciente Identificado (P.I.) e acessar as tensões estruturais do casal.

 

Referências:

OSÓRIO, Luiz Carlos. Grupos: teoria e práticas: acessando a era da grupalidade. Porto Alegre: Artmed, 2000.

ABERASTURY, Arminda. Psicanálise da criança: teoria e técnica. 8. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.

MINUCHIN, S.; FISHMAN, C. H. Técnicas de terapia familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

SATIR, Virgínia. (Foco na Comunicação e Autoestima):SATIR, V. Terapia do grupo familiar. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.

 

 

LucianaFranklin
Enviado por LucianaFranklin em 30/06/2026
Alterado em 30/06/2026
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