

A Revolução na Pele"O mais profundo é a pele" é uma frase de Paul Valéry, que surge num texto intitulado A alma e a dança em 1934. Desde Nietzsche, passando por Artaud e Deleuze, e ainda no séc. XVII com Spinoza, o corpo foi resgatado do seu esquecimento correlato à superioridade da alma e se reaproximou de seus direitos, e em vez da profundidade estar escondida no interior, é na superfície, na pele, que encontramos a nossa maior identidade, nossa relação com o mundo, nossas memórias e vulnerabilidades.
Deleuze utiliza o conceito para subverter a tradicional valorização da "profundidade" (a essência oculta, as profundezas da alma ou do inconsciente). Em vez disso, propõe que a superfície é o lugar de encontro e o limite onde a vida e o acontecimento se produzem e se desenrolam. A pele é a fronteira porosa entre os corpos materiais e os efeitos incorpóreos (o sentido), onde as intensidades e os paradoxos se manifestam.
A máxima "o mais profundo é a pele" (em francês, Ce qu'il y a de plus profond dans l'homme, c'est la peau) é uma ideia fixa presente e aparece em seus ensaios e diálogos filosóficos sobre o corpo, como na obra L'Idée fixe (A Ideia Fixa), publicada em 1932, isso para dizer que o corpo não é um recipiente natural para uma alma. Ele é um espaço onde as relações de poder, as disciplinas e as normas sociais atuam, deixando marcas, gestos e posturas diretamente na superfície, onde não há um "eu" secreto ou oculto; o que somos, nossas sensações e nossa identidade estão expostos e são vividos na fronteira do corpo com o mundo e a pele é a nossa interface com o exterior e é através dela que o mundo nos afeta e nos constitui. A subjetividade é formada justamente por esse contato contínuo com o ambiente e a sociedade.
Em Wilhelm Reich, as emoções, traumas e repressões não ficam apenas no campo abstrato do inconsciente; eles se inscrevem fisicamente na musculatura e na pele. Ele desenvolveu o conceito de que o corpo desenvolve "armaduras" ou couraças físicas (tensões crônicas) para bloquear sentimentos dolorosos. O que está na superfície (a postura, a rigidez, o toque na pele) é a via de acesso mais profunda para destravar os fluxos de energia vital e as emoções reprimidas. O corpo e a mente não são separados e a transformação e a liberação de traumas não ocorrem apenas pelo entendimento racional, mas sim pela vivência e por sentir diferente através do próprio corpo.
Na vida contemporânea vemos surgir a nutrigenética, onde a pele é a nossa interface com o mundo, e o que acontece na superfície é reflexo direto do nosso interior, através da análise de como o ácido desoxirribonucleico, composto orgânico cujas moléculas contém instruções genéticas, armazenam as informações necessárias para o metabolismo de nutrientes.
Fontes:
A descoberta do DNA e o projeto genoma. Rev. Assoc. Med. Bras., São Paulo, v. 51, n. 1, p. 1, Feb. 2005.
DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. Tradução de Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo: Editora Perspectiva. A citação e discussão do aforismo de Valéry ocorrem logo nas primeiras séries de paradoxos, com destaque para a Segunda Série.
LINS, Daniel/GIL, José (org.). Nietzsche/Deleuze. Jogo e música. Rio de Janeiro: Forense, 2008.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Além do bem e do mal. (Prefácio a uma filosofia do futuro). Tradução, notas e posfácio: Paulo César de Souza. 2a ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
REICH, Wilhelm. Análise do Caráter. Rio De Janeiro, Petrópolis: Vozes, 1989.
LucianaFranklin
Enviado por LucianaFranklin em 15/07/2026
Alterado em 15/07/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |