LucianaFranklin

“A palavra é metade de quem a pronuncia, metade de quem a escuta” Michel de Montaigne

Textos


O Ser e o Nada (ou o Mingau)

A aveia, esse grão tão comum revela-se um símbolo perfeito para discutir a essência, a transformação e a relação entre o homem e a natureza:

 

A Ontologia do Cotidiano: O Ser e o Nada (ou o Mingau) - Em seu estado bruto, a aveia é apenas um grão seco e sem graça. No entanto, ela possui uma potência (no sentido aristotélico) extraordinária. Quando entra em contato com o calor e a água (ou leite), ela passa por uma transição ontológica: deixa de ser um corpo rígido e individualizado para se tornar uma massa homogênea e acolhedora — o mingau. Metafisicamente, a aveia é o oposto do "nada". Ela existe para preencher o vazio estomacal e a angústia matinal, trazendo uma sensação de segurança existencial e aterramento.

 

A Dialética do Conforto vs. Resiliência - Antes de chegar à sua mesa, a aveia (Avena sativa) é uma das plantas mais resistentes que existem. Ela cresce em solos pobres e resiste ao frio que mataria outros cereais. Há uma metafísica da resiliência silenciosa nela: ela absorve a rigidez do mundo para devolvê-la em forma de nutrição suave. Ela não ostenta a nobreza do trigo (ligado ao pão sagrado) nem a onipresença do arroz. A aveia é humilde, quase invisível, mas sustenta o corpo de forma integral. É a vitória do simples sobre o complexo.

 

Fenomenologia e a Percepção do Tempo - Ela evoca a quietude, o início do dia, o desacelerar. Enquanto o café representa a aceleração e a ansiedade da mente moderna, a aveia exige mastigação, paciência e digestão lenta. Ela altera a nossa percepção e ritmo fenomenológico do tempo, forçando-nos a entrar em sincronia com processos biológicos mais naturais.

 

A Unidade Monística (Corpo e Mente): Comer aveia é um ato onde a matéria puramente física transforma-se diretamente em bem-estar metafísico (paz mental e clareza).

 

E se ela cair no chão? Quando a aveia cai no chão, ocorre uma ruptura trágica e instantânea na sua ordem metafísica. Aquele grão que antes representava o ápice do conforto e da ordem doméstica é imediatamente tragado pelo caos do mundo profano. Entramos diretamente no território do Absurdo. Ao contrário de um biscoito ou de um pedaço de pão, ela não cai, ele se espalha, se amalgama com a poeira e assume a forma do próprio chão.

     Se for limpar o mingau de aveia do chão é uma tarefa hercúlea. A consistência que antes era nutritiva torna-se uma substância colante e cinzenta e se percebe a fragilidade de seus planos diante de um universo indiferente, mas o barulho sutil da aveia crua batendo no piso é o som da entropia. O pacote que antes continha uma unidade perfeitamente organizada agora representa o puro caos geográfico. O chão lembra à aveia que toda a domesticação da natureza — o plantio, a colheita, o design da embalagem, o frete até o supermercado — pode ser cancelada em um milésimo de segundo pela força implacável da gravidade.

     A aveia no chão nos força a praticar o Estoicismo, aceitar que o café da manhã idealizado já não existe mais e que a única realidade que resta é pegar a vassoura ou o pano úmido.

 

 

 

 

LucianaFranklin
Enviado por LucianaFranklin em 23/10/2026
Alterado em 23/10/2026
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